domingo, 28 de março de 2010

Reabilitação Profissional é tema de eventos no Brasil

 Em entrevista, doutora em saúde coletiva fala sobre novo modelo baseado em Sherbrooke, Canadá


A reabilitação profissional, bem como a saúde do trabalhador e a prevenção de doenças e acidentes  no trabalho são temas que ganham espaço em eventos como simpósios, seminários e congressos em todo o Brasil.
Em dezembro, foi realizado, em São Paulo, um encontro para a apresentação de nova  proposta de Reabilitação Profissional.  Baseado no modelo de Sherbrooke, no Canadá,  o projeto tem como objetivo promover, em conjunto com as áreas da Saúde, Trabalho e Previdência Social, a reinserção de trabalhadores com restrições físicas e psíquicas nos ambientes de trabalho. 
O projeto-piloto é desenvolvido  pelo Centro de Referência em Saúde do trabalhador - Cerest, de piracicaba e pelo Instituto Nacional de Seguro Social,  com a participação da Fundacentro, da Escola de Enfermagem da USP e de representantes da universidade de Toronto, o professor Patrick Loisel e a doutora Katia Costa-Black.
A equipe Mundo do Trabalho entrevistou a Doutora em Saúde coletiva,  Mara Alice Conti Takahashi, que compôs a mesa técnica, representando o Cerest, no evento.

* Dra. Mara Alice Conti Takahashi - Graduada em Ciências Sociais, mestra em saúde coletiva e doutorado em saúde coletiva pela Universidade Estadual de Campinas, com especialização em ergonomia- UNIMEP/UFMG. Ex-coordenadora do Centro de Reabilitação Profissional do INSS em Campinas.

Mundo do Trabalho - Por que o encontro em São Paulo, ocorreu?

Mara Takahashi - A discussão sobre o modelo brasileiro de reabilitação profissional já vem acontecendo há algum tempo na Fundacentro de São Paulo, coordenado pela pesquisadora Dra. Maria Maeno. Foram realizados outros dois eventos anteriores sobre a temática. O CEREST-Piracicaba também participa desde o início deste debate, representado por mim e pela Dra. Ecléa Spiridião Bravo.
Especificamente sobre o ultimo evento, o objetivo foi a de apresentar às instituições e ao controle social (sindicatos, conselhos de saúde) que estão também inseridos neste debate, a proposta do Prof. Patrick Loisel, da Universidade de Sherbrooke – Canadá, que é a de que o CEREST-Piracicaba seja um cenário de aplicação/ aculturação do modelo teórico denominado “Prevenção da Incapacidade Permanente ao trabalho”. O evento tornou público a nossa intenção de participar.

Mundo do Trabalho - No que consiste essa parceria?

Mara Takahashi - O protocolo de intenções , que será assinado nos próximos dias, contempla a parceria entre o CEREST-Piracicaba, o Programa Reabilita do INSS de Piracicaba, a Fundacentro –SP, a Escola de Enfermagem da USP- São Paulo e Centre for Action in Work Disability Prevention and Reahabilitation - CAPRIT, sob a coordenação do Prof. Patrick Loisel - Universidade de Sherbrooke, Québec, Canadá.
Ao CEREST – Piracicaba e ao Programa Reabilita do INSS cabem, conjuntamente, implementar um projeto piloto, baseado no referido modelo, no atendimento a trabalhadores acometidos por acidentes de trabalho, LER/DORT e transtornos psíquicos relacionados ao trabalho.
            À Fundacentro cabe acompanhar todas as fases de implantação do projeto- piloto; avaliar, periodicamente, conjuntamente com os demais parceiros, os resultados da execução; e facilitar o processo de implantação oferecendo apoio às equipes na superação das dificuldades técnicas de saúde e segurança do trabalho que se interponham à sua implantação.
           À EEUSP cabe treinar as equipes multidisciplinares de reabilitação profissional do CEREST-Piracicaba e Programa Reabilita do INSS de Piracicaba quanto aos pressupostos conceituais e metodológicos do Modelo de Sherbrooke; prestar supervisão continuada durante as fases de implantação; avaliar, periodicamente, conjuntamente com os demais parceiros, os resultados da execução e facilitar o processo de implantação oferecendo apoio às equipes na superação das dificuldades técnicas que se interponham à implantação.
    Ao Prof. Patrick Loisel e sua equipe cabem a supervisão técnica geral e a avaliação final do projeto piloto.

Mundo do Trabalho - Quais são as vantagens desse trabalho em conjunto com a Universidade de Sherbrooke para o Brasil?

Mara Takahashi - O modelo teórico do Prof. Patrick Loisel é afinado com a proposta do modelo social da incapacidade, resultado de uma pesquisa multicêntrica em diversos países sobre os preditores positivos e negativos, que facilitam ou obstaculizam os programas de retorno ao trabalho. Trata-se de um modelo validado cientificamente por sua resolutividade e eficiência.
            O programa de Reabilitação Profissional já desenvolvido pelo CEREST Piracicaba, em conjunto com o INSS, e o Modelo de Reabilitação Profissional de Sherbrooke possuem semelhanças de enfoques e objetivos, pois ambos estão afinados com a abordagem biopsicossocial da incapacidade para o trabalho e com a proposta de intervenção precoce para prevenção da incapacidade permanente. Esta aproximação teórica é que motivou o Prof. Patrick a convidar o CEREST – Piracicaba e o INSS de Piracicaba a serem cenários experimentais de aplicação do referido modelo.

Mundo do Trabalho - Como é, na sua opinião, enxergado o trabalho que é feito no Brasil, em cima da reabilitação, no exterior?

Mara Takahashi - Em relação ao modelo de Reabilitação Profissional oficial do INSS não tenho conhecimento mas o que sentimos é que o Prof. Patrick e sua equipe ficaram satisfeitos com o modelo alternativo desenvolvido em Piracicaba, o que justifica o convite.

Mundo do TrabalhoO Brasil atua de maneira ímpar na reabilitação profissional, o que você acha?

Mara Takahashi - Na minha opinião, o modelo Reabilita vigente é restritivo, burocrático e pouco eficiente. Centrado na incapacidade física, não contempla a necessária abordagem biopsicossocial da reabilitação profissional. Entretanto, dentro da Previdência Social este modelo está em discussão e há uma intenção declarada de mudança. Assim sendo, acredito que os resultados obtidos pelo projeto piloto de Piracicaba poderão contribuir muito neste debate nacional e nos rumos da mudança preconizada pelo INSS.

Mundo do Trabalho - O que teve de mais rico e interessante no conteúdo que foi passado naquele encontro?

Mara Takahashi - A construção teórica-metodológica do modelo de Sherbrooke, os seus objetivos e os resultados alcançados.

Mundo do TrabalhoQual é a sua perspectiva a respeito dessa parceria entre o Brasil e o Canadá?

Mara Takahashi - Não se trata de uma parceria oficial entre os dois países, mas sim entre dois serviços de reabilitação profissional que, a meu ver, tem uma cooperação técnica interessante, de mão dupla.

Mundo do Trabalho - Na sua visão, como que as informações sobre o evento que ocorreu no final do ano passado podem contribuir para o nosso blog?

Mara Takahashi - Creio que poderá possibilitar aos interessados nesta temática acompanhar este debate que vem acontecendo a nível nacional, ampliando a rede de controle social sobre os rumos da política pública de Reabilitação Profissional no Brasil.

Mundo do Trabalho - Qual é a importância de haver registros nos meios de comunicação, como o blog e o documentário "O Mundo do Trabalho" e o artigo "As mudanças nas práticas de reabilitação profissional da Previdência Social no Brasil", de Mara Takahashi?

Mara Takahashi - Como disse anteriormente, a Reabilitação Profissional é uma política do Estado brasileiro e o modelo atual não responde às demandas de proteção social dos trabalhadores adoecidos e acidentados do trabalho, portanto, precisa ser revista e reformulada. Todos os estudos e pesquisas são importantes nesta construção bem como a experiência profissional dos técnicos dos serviços previdenciários de reabilitação profissional desmobilizados com o desmonte da rede nos anos 1990.

Mundo do Trabalho E se a reabilitação profissional em Juiz de Fora, e no Brasil como um todo, fosse um "segurado", como se daria seu processo de reabilitação?

Mara Takahashi - Precisaria ser reabilitado como as demais unidades de reabilitação profissional do INSS. O primeiro passo seria devolver aos profissionais a possibilidade do exercício de suas competências de médicos reabilitadores, assistentes sociais, sociólogos, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, pedagogos etc... pasteurizados e subutilizados pela figura inespecífica do OP -Orientador Profissional. Ao devolver-lhes a competência, é necessário também provê-los de recursos materiais, técnicos e de respaldo institucional para que possam realizar seu trabalho de forma interdisciplinar e interinstitucional. A normatização de um bom modelo teórico, com viabilidade de operacionalização, seria o terceiro passo.

Camila Pravato e Rita Fernandes

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